{"id":75489,"date":"2025-07-17T09:55:31","date_gmt":"2025-07-17T12:55:31","guid":{"rendered":"https:\/\/appservicos.com\/noticias\/100-anos-de-clara-charf-defesa-da-democracia-marca-trajetoria-de-luta\/"},"modified":"2025-07-17T09:55:42","modified_gmt":"2025-07-17T12:55:42","slug":"100-anos-de-clara-charf-defesa-da-democracia-marca-trajetoria-de-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/appservicos.com\/noticias\/100-anos-de-clara-charf-defesa-da-democracia-marca-trajetoria-de-luta\/","title":{"rendered":"100 anos de Clara Charf: defesa da democracia marca trajet\u00f3ria de luta"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><strong>For\u00e7a, sorriso aberto, obstina\u00e7\u00e3o e uma estrada feita de paix\u00f5es. Apaixonada pela liberdade, pela fam\u00edlia, por um grande amor e pelo pa\u00eds. <\/strong>Quem testemunhou a trajet\u00f3ria da ativista brasileira Clara Charf, que completa, nesta quinta-feira (17), 100 anos de idade, a define como uma mulher \u00e0 frente do seu tempo.\u00a0<\/p>\n<p>Quem a acompanhou em algum momento enumera que Clara \u00e9 uma mulher que precisou se reinventar e superar os dias duros, de pris\u00e3o, assassinato do companheiro Carlos Marighella (foto), ex\u00edlio e recome\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Atualmente, Clara tem apenas lapsos de mem\u00f3ria, como explica a irm\u00e3 ca\u00e7ula, Sara Grinspum, de 94 anos. Elas vivem juntas em S\u00e3o Paulo. Sarita, como \u00e9 chamada em casa, afirma que Clara foi uma companheira sempre presente, ainda mais depois que a m\u00e3e delas, Ester, morreu precocemente com apenas 40 anos de idade, v\u00edtima de tuberculose.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA minha irm\u00e3 sempre prezou muito pela liberdade e pela vontade de ajudar as pessoas\u201d, disse Sarita, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.\u00a0Clara, refer\u00eancia e \u00eddola da irm\u00e3, n\u00e3o foi m\u00e3e. &#8220;Na vida dela, n\u00e3o tinha como&#8221;, explica.<br \/> \u00a0<\/p>\n<div>\n<\/div>\n<h2>Inquieta<\/h2>\n<p>A documentarista Isa Grinspum Ferraz, autora do premiado document\u00e1rio <em>Marighella <\/em>(2012), sobre o tio guerrilheiro assassinado pela ditadura militar em 1969, diz que Clara tem uma hist\u00f3ria de 100 anos intensamente vividos. \u201cDesde sempre, Clara foi uma pessoa inquieta, que queria transformar o mundo e que queria ser uma mulher livre\u201d, explica.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A sobrinha recorda que Clara quis (e conseguiu) ser aeromo\u00e7a nos anos 1940, quando a profiss\u00e3o sofria com estere\u00f3tipos<\/strong>. \u201cEla queria voar, ser livre, criar coisas e [tinha] uma preocupa\u00e7\u00e3o social muito forte, muito grande\u201d. Isa pondera que a tia tem uma trajet\u00f3ria de exemplo ao aderir \u00e0 milit\u00e2ncia por justi\u00e7a desde os 16 anos de idade.\u00a0<\/p>\n<p>Depois que se ligou ao Partido Comunista Brasileiro, Clara se casou em 1947 com o tamb\u00e9m ativista Carlos Marighella. Ap\u00f3s o golpe militar, o guerrilheiro, nos \u00faltimos anos de vida, participou da luta armada, o que fez Clara temer muito pelo destino. Ela tamb\u00e9m era perseguida por agentes da ditadura e foi presa. \u201cClara \u00e9 uma mulher apaixonada pelo Brasil, pela Am\u00e9rica Latina e pelas lutas dos povos do mundo por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d, revela Isa.<\/p>\n<h2>Exilada<\/h2>\n<p>Isa Grinspum reconhece que a tia viveu profundas dores com a perda do companheiro de vida, assassinado pela repress\u00e3o em S\u00e3o Paulo. Mesmo assim, avalia, ela sempre foi uma pessoa muito otimista e alegre.<\/p>\n<p><strong>Depois do assassinato de Marighella, Clara foi para o ex\u00edlio em Cuba naqueles tempos em que o Brasil vivia sob a legisla\u00e7\u00e3o opressiva do ato institucional n\u00famero 5 (AI-5), que revogava todas as liberdades individuais. Marighella era o inimigo n\u00famero 1 da ditadura. A companheira dele, por consequ\u00eancia, tamb\u00e9m era perseguida.<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cPara n\u00f3s, as crian\u00e7as da fam\u00edlia, sempre foi muito dif\u00edcil estar longe da tia Clara.\u00a0Ela passou 10 anos no ex\u00edlio. Para n\u00f3s, era um v\u00e1cuo\u201d, revela. A fam\u00edlia ficou seis anos sem not\u00edcias. \u201cFomos reencontr\u00e1-la depois, em 1975, em Portugal.\u00a0Foi um encontro muito emocionante\u201d, recorda a sobrinha.\u00a0<\/p>\n<p>Esse encontro tamb\u00e9m \u00e9 citado pela irm\u00e3, Sara, como um dos grandes momentos de sua vida. \u201cQuando a vimos, nos abra\u00e7amos muito e est\u00e1vamos todos emocionados. \u00c9 inesquec\u00edvel\u201d. Clara voltou ao Brasil em 1979, depois da lei de anistia.\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<p><h6>Carlos Marighella e Clara Charf, por Carlos Mariguella\/Arquivo Pessoal<\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>Desde que voltou ao Brasil, Clara se engajou na luta pol\u00edtica.<strong> \u201cEla passou a ficar muito pr\u00f3xima da luta das mulheres, das liberdades, dos direitos e por uma condi\u00e7\u00e3o social sempre mais justa e igualit\u00e1ria. Justi\u00e7a \u00e9 uma palavra importante para Clara\u201d. <\/strong>Inclusive, foi candidata a deputada estadual em 1982, pelo Partido dos Trabalhadores. Mas n\u00e3o se elegeu.<\/p>\n<p>>>\u00a0Casa onde Marighella viveu em Salvador ser\u00e1 transformada em instituto<\/p>\n<h2>Nordestina e filha de judeus<\/h2>\n<p>Clara Charf, a mais velha de tr\u00eas irm\u00e3os, nasceu em Macei\u00f3, em Alagoas, depois que os pais, judeus russos, fugiram\u00a0da Europa. O pai, Gdal, trabalhou como mascate. Mesmo assim, Clara conseguiu aprender ingl\u00eas e piano. A fam\u00edlia mudou-se para Recife onde a comunidade judaica j\u00e1 havia se estabelecido. Na capital pernambucana, Ester morreu de tuberculose com apenas 40 anos de idade.\u00a0<\/p>\n<p>Diante das dificuldades da fam\u00edlia, a filha mais velha foi para o Rio de Janeiro tentar emprego com 20 anos de idade. Filiou-se ao Partido Comunista em 1946. Foi l\u00e1 que conheceu Carlos Marighella, como explica o escritor M\u00e1rio Magalh\u00e3es na biografia sobre o guerrilheiro.\u00a0<\/p>\n<p>Ele revela que Clara, inicialmente, foi vender jornal em um bonde. O pai Gdal n\u00e3o viu com bons olhos essa atividade, nem depois o namoro com o comunista n\u00e3o-judeu. Mesmo assim, Clara n\u00e3o desistiu do amor. E gra\u00e7as ao conhecimento do idioma ingl\u00eas conseguiu uma vaga para ser aeromo\u00e7a.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o do casal fez com que ambos lutassem juntos em ideais de transforma\u00e7\u00e3o do Brasil durante a ditadura. Ap\u00f3s a morte de Marighella, ex\u00edlio for\u00e7ado e depois retorno, Clara participou no Partido dos Trabalhadores pela democracia e tamb\u00e9m pela luta das mulheres. \u00a0<\/p>\n<p>>> Viva Maria, 2014:\u00a0Vi\u00fava de Marighella comenta tumulto em sess\u00e3o contra a ditadura<br \/> \u00a0<\/p>\n<div>\n<\/div>\n<h2>Mulheres pela Paz<\/h2>\n<p>Em 2005, Clara Charf passou a coordenar no Brasil o\u00a0movimento <em>Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo<\/em>, que nasceu na Su\u00ed\u00e7a. A ideia foi promover a indica\u00e7\u00e3o coletiva de mil mulheres para o Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2005. No Brasil, seria preciso escolher 52 mulheres ativistas.\u00a0<\/p>\n<p>Em entrevista ao programa <em>Viva Maria<\/em>, da<strong> Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC)<\/strong>, Clara Charf disse que esse foi um grande desafio. \u201cA gente alcan\u00e7ou praticamente o pa\u00eds todo. O Brasil tem tanta mulher valorosa, que n\u00e3o foi f\u00e1cil\u201d. Cada mulher escolhida se incumbiu de encontrar tr\u00eas jovens para conscientizar sobre multiplica\u00e7\u00e3o do conhecimento e direitos.\u00a0<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas vidas em intensidade. De aeromo\u00e7a a dirigente comunista, de companheira de Carlos Marighella a coordenadora de projetos internacionais de paz, a milit\u00e2ncia de Clara Charf \u00e9 hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A professora Vera Vieira, atual dirigente da Associa\u00e7\u00e3o Mulheres pela Paz, recorda que foi chamada por Clara para colaborar quando Vera era\u00a0coordenadora executiva de uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental chamada Rede Mulher de Educa\u00e7\u00e3o. \u201cHouve uma sintonia muito grande entre n\u00f3s duas. Ela sempre teve o poder da fala. E as pessoas a aplaudiam de p\u00e9 onde ela chegava\u201d, avalia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O legado de Clara para a associa\u00e7\u00e3o \u00e9 imensur\u00e1vel, na avalia\u00e7\u00e3o de Vera Vieira, ao abarcar projetos de conscientiza\u00e7\u00e3o pelos direitos das mulheres. Ela diz que faltam recursos financeiros, mas tem conseguido parcerias para atividades, como a do ano passado em que foi desenvolvido um projeto financiado pelo Minist\u00e9rio das Mulheres contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. \u201cEstamos na luta em busca de novos projetos\u201d, assegura.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Vera aponta que Clara se dedicou diretamente \u00e0 causa at\u00e9 que os efeitos do alzheimer passaram a impedi-la de viajar ou agir diretamente. \u201cA gente continua a levar a mensagem da Clara Charf, desse conceito ampliado de paz que se alicer\u00e7a na justi\u00e7a social e na seguran\u00e7a humana\u201d, afirma a dirigente.\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n<div>\n<\/div>\n<h2>Visibilidade<\/h2>\n<p>Para o centen\u00e1rio, a Associa\u00e7\u00e3o Mulheres pela Paz busca expandir a visibilidade da hist\u00f3ria da ativista. <strong>Com apoio da jornalista Patr\u00edcia Negr\u00e3o, a pretens\u00e3o \u00e9 encontrar recursos para publicar um livro com \u00a0entrevistas de pessoas que passaram pela vida da Clara. N\u00e3o h\u00e1 at\u00e9 agora uma biografia sobre ela.<\/strong> \u201cEla \u00e9 uma pessoa muito \u00e0 frente do tempo dela\u201d, assegura.<\/p>\n<p><strong>Tem a mesma opini\u00e3o outro cineasta, S\u00edlvio Tendler, tamb\u00e9m documentarista da hist\u00f3ria de Carlos Marighella.<\/strong> Ele explica que a busca por denunciar o que ocorreu com o marido de Clara a levou a abrir as mem\u00f3rias do que havia ocorrido. \u201cEla me dava todos os contatos e facilitou tudo. At\u00e9 mesmo de pessoas que representavam uma certa dor para ela, ela n\u00e3o se negou a nada e foi muito generosa\u201d, diz o cineasta.\u00a0<\/p>\n<p>A cineasta Isa Grinspum Ferraz tamb\u00e9m entende que a hist\u00f3ria da tia precisa ter mais visibilidade e defende que artistas podem contar uma trajet\u00f3ria fundamental e in\u00e9dita do pa\u00eds. Isa Ferraz diz que o envolvimento emocional t\u00e3o especial com a tia a impede de fazer um novo filme sobre a fam\u00edlia. No entanto, recomenda que um filme ou um livro, por exemplo, devem ser feitos o quanto antes em vista de haver ainda pessoas que s\u00e3o testemunhas desse percurso.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c<strong>Hoje, Clara est\u00e1 com problemas de mem\u00f3ria, mas sempre que tem momentos de lucidez, ela est\u00e1 falando em melhorar a vida das pessoas e de como poderia ajudar\u201d, diz Isa.<\/strong> A irm\u00e3, Sarita, tamb\u00e9m defende que mais hist\u00f3rias de Clara sejam recuperadas. \u00c0s vezes, ela faz discursos e conversamos sobre os direitos das mulheres. \u00c0s vezes, ela esquece,\u00a0mas n\u00f3s conversamos bastante\u201d. <strong>A for\u00e7a, o sorriso e os ideais resistiram ao tempo.<\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>For\u00e7a, sorriso aberto, obstina\u00e7\u00e3o e uma estrada feita de paix\u00f5es. Apaixonada pela liberdade, pela fam\u00edlia, por um grande amor e pelo pa\u00eds. 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