{"id":82753,"date":"2026-09-05T10:41:06","date_gmt":"2026-09-05T13:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/appservicos.com\/noticias\/da-amazonia-ao-chaco-america-latina-tem-desafios-com-clima-e-terra\/"},"modified":"2026-09-05T10:41:20","modified_gmt":"2026-09-05T13:41:20","slug":"da-amazonia-ao-chaco-america-latina-tem-desafios-com-clima-e-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/appservicos.com\/noticias\/da-amazonia-ao-chaco-america-latina-tem-desafios-com-clima-e-terra\/","title":{"rendered":"Da Amaz\u00f4nia ao Chaco, Am\u00e9rica Latina tem desafios com clima e terra"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Na Amaz\u00f4nia peruana, o ind\u00edgena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi alerta que a seca amea\u00e7a n\u00e3o apenas alimentos e rios, mas tamb\u00e9m culturas e conhecimentos ancestrais.<\/p>\n<p>Em El Salvador, a l\u00edder juvenil Xenia L\u00f3pez acompanha comunidades do Corredor Seco Centro-Americano que tentam adaptar a agricultura \u00e0 falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na parte argentina do Chaco Americano, a professora e ativista Antonella Sleiman conta que a regi\u00e3o, historicamente afetada pela seca, teve inunda\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas que\u00a0devastaram planta\u00e7\u00f5es este ano.<\/p>\n<p><strong>As tr\u00eas hist\u00f3rias foram compartilhadas durante a 17\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o (COP17), encerrada na semana passada em Ulaanbaatar, na Mong\u00f3lia. Elas levantam desafios comuns que v\u00e3o al\u00e9m do evento: como transformar metas internacionais de restaura\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 seca em mudan\u00e7as concretas para quem depende diretamente da terra na Am\u00e9rica Latina.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cerca de 28% dos territ\u00f3rios na regi\u00e3o s\u00e3o de terras degradadas. <\/strong>O \u00edndice \u00e9 muito superior \u00e0 m\u00e9dia global (que gira em torno de 15% a 16%). Os dados s\u00e3o da conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas especializada no combate \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o (UNCCD, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p><strong>A confer\u00eancia terminou com novos mecanismos de financiamento, discuss\u00f5es sobre uma arquitetura global de resili\u00eancia \u00e0 seca e maior participa\u00e7\u00e3o formal de povos ind\u00edgenas e comunidades. <\/strong><\/p>\n<p>Para os representantes latino-americanos, no entanto, a dist\u00e2ncia entre as decis\u00f5es internacionais e os cotidianos locais ainda \u00e9 grande.<\/p>\n<h2>Quando a chuva n\u00e3o vem<\/h2>\n<p>Xenia L\u00f3pez trabalha com 16 comunidades rurais e semi urbanas no departamento de Chalatenango, em El Salvador. A maior parte delas vive principalmente da agricultura. A regi\u00e3o est\u00e1 dentro do Corredor Seco Centro-Americano, uma faixa que se estende desde o sul do M\u00e9xico at\u00e9 o oeste do Panam\u00e1, e \u00e9 particularmente vulner\u00e1vel \u00e0 irregularidade das chuvas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cH\u00e1 zonas que enfrentam longos per\u00edodos de ver\u00e3o e epis\u00f3dios de calor intenso no inverno. Quando deveria chover e abastecer a agricultura, simplesmente fica seco\u201d, contou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nos \u00faltimos anos, Xenia passou a trabalhar com comunidades na ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas. A preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas com a redu\u00e7\u00e3o das chuvas, mas tamb\u00e9m com solos empobrecidos pelo uso intensivo de produtos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>Segundo a l\u00edder, a mudan\u00e7a das pr\u00e1ticas permitiu melhorar o aproveitamento da \u00e1gua e a prote\u00e7\u00e3o do solo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA agroecologia, ao inv\u00e9s da agricultura intensiva, nos permite fazer um uso mais eficiente da \u00e1gua e proteger o solo, em vez de trat\u00e1-lo apenas como um recurso do qual podemos usar e abusar\u201d, relata.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>S\u00e3o solu\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, mas os problemas demandam maior apoio de autoridades e organismos internacionais. Xenia lamenta o fato de pa\u00edses como El Salvador e Nicar\u00e1gua terem governos hostis, que n\u00e3o permitem espa\u00e7os de reivindica\u00e7\u00e3o por iniciativas mais estruturais.<\/p>\n<p><strong>Participantes defendem que confer\u00eancias como a COP17 permitem construir redes de apoio, dar maior visibilidade \u00e0s demandas populares e sonhar com um futuro diferente para a regi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNo evento, contamos muito com a ajuda do Brasil, que nos deu espa\u00e7o no pavilh\u00e3o do pa\u00eds. L\u00e1, conseguimos compartilhar nossas hist\u00f3rias e lutas. Mas precisamos de ajuda para ampliar nossas vozes em espa\u00e7os internacionais e ter um lugar espec\u00edfico para as quest\u00f5es da Am\u00e9rica Central\u201d, diz Xenia.<\/p>\n<h2>Da seca \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No Chaco Americano, na Argentina, Antonella Sleiman vive outro tipo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do Rio Salado Norte sempre conviveu com a seca. Neste ano, por\u00e9m, tiveram de lidar com o outro extremo. Comunidades que haviam aprendido a administrar a escassez de \u00e1gua enfrentaram inunda\u00e7\u00f5es em uma escala que, segundo ela, n\u00e3o era observada havia cerca de 50 anos.<\/p>\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<p><h6>\u00a0Antonella Sleiman viu comunidades acostumadas a lidar com a seca serem inundadas. <strong>Maristela Crispim\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>As fam\u00edlias produzem milho, ab\u00f3bora e outros alimentos principalmente para consumo pr\u00f3prio e para o com\u00e9rcio local. Tamb\u00e9m criam cabras, ovelhas, vacas e porcos.<\/p>\n<p>Com as inunda\u00e7\u00f5es, perderam parte das planta\u00e7\u00f5es e da vegeta\u00e7\u00e3o utilizada naturalmente para alimentar os animais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEste ano, pela primeira vez, algumas comunidades precisaram comprar alimentos para as fam\u00edlias e para os rebanhos em localidades distantes. Essa mudan\u00e7a gerou muitos problemas\u201d, conta.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Professora de escolas rurais e promotora territorial da Funda\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento em Justi\u00e7a e Paz (Fundapaz), Antonella participa tamb\u00e9m da Mesa de Tierra del Salado Norte, que re\u00fane representantes de oito organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas distribu\u00eddas em uma \u00e1rea de cerca de 80 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Todos os meses, o grupo debate problemas de terra, \u00e1gua, produ\u00e7\u00e3o, agricultura e juventude.<\/p>\n<p>Antonella, assim como Xenia, integra a Plataforma Semiaridos, iniciativa formada por 16 institui\u00e7\u00f5es representativas de 10 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Ela espera que as demandas do seu povo tenham ecoado durante a COP17 e que novos espa\u00e7os sejam abertos a partir do evento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gostaria que nossas lutas ficassem restritas \u00e0s nossas realidades, mas que fossem captadas e ampliadas. Que pud\u00e9ssemos ser capazes de incidir nas negocia\u00e7\u00f5es que decidem o futuro de todos n\u00f3s. Trazemos as vozes dos nossos territ\u00f3rios sem intermedi\u00e1rios, ent\u00e3o, seria importante que pudessem nos escutar e nos incluir nas decis\u00f5es\u201d, diz Antonella.<\/p>\n<h2>Seca tamb\u00e9m amea\u00e7a cultura<\/h2>\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<p><h6>\u00a0Gilmer Yuimachi defende que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o guardi\u00f5es dos territ\u00f3rios.\u00a0<strong>Gilmer Yuimachi\/ Arquivo Pessoal<\/strong><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>Na Amaz\u00f4nia peruana, Gilmer Yuimachi observa outra dimens\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Ind\u00edgena do povo shipibo-konibo, ele atua pela Associa\u00e7\u00e3o Intercultural Bari Wesna junto a comunidades de Ucayali e de outras regi\u00f5es amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p><strong>Segundo Yuimachi, per\u00edodos prolongados de seca reduzem os n\u00edveis de rios, lagos e igarap\u00e9s utilizados para consumo, pesca, agricultura e cria\u00e7\u00e3o de animais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altera\u00e7\u00f5es no regime de chuvas tamb\u00e9m prejudicam cultivos fundamentais para a alimenta\u00e7\u00e3o das comunidades, entre eles mandioca, milho, feij\u00e3o e arroz. Mas ele enfatiza que reduzir o problema a perdas econ\u00f4micas seria insuficiente.<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cDesde nossa experi\u00eancia nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia peruana, a seca e a degrada\u00e7\u00e3o dos solos n\u00e3o significam somente falta de \u00e1gua ou que a terra produz menos. Significam colocar em risco nossa alimenta\u00e7\u00e3o, nossas florestas, nossos peixes, nossas plantas medicinais e tamb\u00e9m nossos conhecimentos e nossa cultura\u201d, reflete.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao mesmo tempo, Yuimachi rejeita a imagem dos povos ind\u00edgenas apenas como v\u00edtimas da crise ambiental.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o queremos ser vistos somente como comunidades vulner\u00e1veis. Somos tamb\u00e9m guardi\u00f5es do territ\u00f3rio e temos conhecimentos ancestrais que podem contribuir para a restaura\u00e7\u00e3o das florestas, a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a recupera\u00e7\u00e3o de terras degradadas\u201d.<\/p>\n<h2>Vozes jovens na COP<\/h2>\n<p>Nem todos os\u00a0jovens latino-americanos\u00a0que participaram da confer\u00eancia em Ulaanbaatar\u00a0vivem diretamente em territ\u00f3rios marcados pela desertifica\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o dos solos. O que n\u00e3o significa que n\u00e3o sejam afetados por elas.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da brasileira Thaiane Maciel, 33 anos, engenheira ambiental e fundadora do Instituto Ecocria, uma organiza\u00e7\u00e3o que trabalha com educa\u00e7\u00e3o ambiental no Rio de Janeiro. Para a engenheira, as pol\u00edticas sobre a terra precisam estar conectadas a diferentes dimens\u00f5es da vida.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA quest\u00e3o da terra engloba tudo: a \u00e1gua, os sistemas alimentares, as migra\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Todos somos impactados em diferentes territ\u00f3rios e devemos pensar em modelos mais sustent\u00e1veis de uso do solo, como a agrofloresta\u201d, pontua.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Thaiane participou da COP17 por meio da coaliz\u00e3o de juventude da conven\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m moderou debates e trabalhou em uma iniciativa de comunica\u00e7\u00e3o destinada a divulgar a atua\u00e7\u00e3o de jovens durante as negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<p><h6>Thaiane Maciel lamenta que os jovens ainda sejam vistos como partes ainda\u00a0em aprendizado- <strong>Thaiane Maciel\/ Arquivo Pessoal<\/strong><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Para ela, um dos problemas desses espa\u00e7os \u00e9 tratar a juventude como um grupo que ainda precisa apenas aprender, e n\u00e3o como parte capaz de formular e executar pol\u00edticas.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAcabam tendo uma vis\u00e3o do jovem como estando ainda em aprendizado, quando, na verdade, a gente j\u00e1 est\u00e1 pronto. N\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea esteja iniciando ou entrando no mercado. Muitos jovens j\u00e1 est\u00e3o consolidados ou t\u00eam essa bagagem t\u00e9cnica e de viv\u00eancia no territ\u00f3rio\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Com o fim da confer\u00eancia, Thaiane espera que as a\u00e7\u00f5es continuem para al\u00e9m das declara\u00e7\u00f5es oficiais e contemplem as necessidades mais urgentes daqueles que vivem diretamente os problemas da terra e da seca.<\/p>\n<p>\u201cO documento final muitas vezes n\u00e3o \u00e9 o que vai ser seguido \u00e0 risca, mas a confer\u00eancia \u00e9 muito mais do que isso. \u00c9 evidenciar o que os pa\u00edses est\u00e3o fazendo, com o que est\u00e3o se comprometendo. \u00c9 o momento de cobrar dos governos solu\u00e7\u00f5es, e de construir parcerias e projetos para os territ\u00f3rios\u201d, finaliza.<\/p>\n<p><em>*O rep\u00f3rter viajou para a Mong\u00f3lia a convite da Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o (UNCCD), ap\u00f3s sele\u00e7\u00e3o entre jornalistas de diversos continentes.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Amaz\u00f4nia peruana, o ind\u00edgena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi alerta que a seca amea\u00e7a n\u00e3o apenas alimentos e rios, mas tamb\u00e9m culturas e conhecimentos ancestrais. 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